Ainda de camisola e remelas nos olhos, pretas por causa da maquiagem do dia anterior, Maria abre a janela e pendura a bandeira verde-amarela-azul-e-branca. À noite precisa tirá-la ou o vento forte que costuma chegar de madrugada ao bairro Serra, em Belo Horizonte, a leva embora. Mas, todos os dias de manhã cedo, assim que acorda, recoloca o emblema da mãe gentil em seu lugar, antes que qualquer vizinho se levante e fique desapontado ao dar por falta dele. Depois de arrumar a bandeira, ela prepara o café da manhã e liga a televisão. Notícias da Copa, claro.
Na casa vivem cinco pessoas. Quatro conhecem o termo escanteio, três sabem os nomes das funções dos jogadores, duas entendem o impedimento, e apenas uma consegue perceber, de fato, quando o jogador está impedido. Todas conhecem o Kaká, sabem que o Alexandre Pato foi casado com a Stephany Brito, mas dois não sabem que o atacante não foi convocado para a Copa do Mundo. Um não sabe que ele é atacante. Todos gritam gol durante os jogos do Brasil – sempre que há gol do Brasil, claro. Todos conhecem o Dunga, não pessoalmente, mas quase como se fosse, e criticam-no, porque, afinal, todos sabem que ele é incompetente. O pai se recorda de dezoito nomes dos vinte e três anunciados por Dunga, enquanto a filha mais velha consegue nomear treze. O filho do meio sabe dizer todos os vinte e três, mais os sete da lista de espera. A mãe e o filho mais novo conhecem os atacantes, o goleiro, o Kaká - porque ele é bonito, limpinho - e vai à Igreja!; e o Diego Tardelli, não porque ele é bonito e limpinho, mas porque é do Atlético-MG e todos na família são atleticanos.
A família adora a Copa do Mundo. Afinal, quem não adoraria? De quatro em quatro anos, o país se colore de verde e amarelo e todos – ou quase todos, jornalistas não incluídos – têm dispensa do trabalho para poder assistir aos jogos. E, ao contrário do que a família está acostumada a ver, seu time costuma jogar bem, ganhar e tem sempre muitas chances de se consagrar campeão. Mais uma vez! Alguns poderiam achar que fica chato, depois de cinco títulos em uma competição em que somente sete países já ganharam (Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, Uruguai, França e Inglaterra). Mas não, ganhar é sempre muito legal. Pergunte a qualquer venezuelano, ou, melhor ainda, venezuelana, e eles dirão que “Miss Universo” é a melhor e mais emocionante competição do universo, com o perdão do trocadilho. Pergunte a um norte-americano e ele lhe dirá que, bem... Para eles quase todas as competições são “piece of cake” (mamão-com-açúcar) . Com algumas exceções, como, tchantchan: isso mesmo, a Copa do Mundo de Futebol - e olha que nessa eles já planejam abocanhar seu espaço: atingiram a final da Copa das Confederações do ano passado e chegaram a colocar 2 de frente no Brasil.
Mas... A Copa do Mundo ainda é nossa! E não importa se tem desemprego, fome, miséria, tortura nos porões da ditadura. Quando Pelé, ou Ronaldinho, ou... Grafite?... Marcam um gol, nada mais importa, a emoção da maior competição esportiva do mundo prevalece sobre todas as outras e, assim, todos os brasileiros, tinta verde e amarela e sorriso no rosto, se abraçam em comemoração.
Alguns afirmam que foi diante desse momento de tanta felicidade e união que os governantes resolveram que ano de Copa seria também ano de eleição. Porque as pessoas ficam felizes com o Brasil e, portanto, dão mais atenção à votação, porque querem bem à nação. Ou algo do tipo. Bobagem. Brasileiro é brasileiro em época de Copa do Mundo ou não. Tal medida seria necessária nesses países cheios de conflitos internos, guerras civis, países da África, Ásia. Aqui não tem guerra civil, nem conflitos internos, não precisamos dessas coisas. E não é como nesses lugares esquisitos na Europa, como Suíça e Bélgica, em que, no mesmo país, ninguém se entende, porque ninguém fala a mesma língua. Deve ser por isso que não conseguem jogar futebol, um grita para passar a bola e o outro entende que é pra chutar para o gol. União e amor à pátria é pré-requisito para uma boa seleção e não conseqüência da mesma. É por isso que em futebol ninguém nos supera. Porque brasileiro é unido em qualquer canto do mundo. Basta procurar pessoas gritando, cantando e atraindo olhares rudes dos outros turistas e moradores locais, e você pode saber: brasileiros. E os olhares rudes? Pura inveja. Porque somos os campeões do mundo e eles não. Há! Como o jogador francês Thierry Henry, que recentemente afirmou que o Brasil só joga bola porque não tem escola. O humorista Beto Hora respondeu: “Tudo bem, nós jogamos futebol porque não temos escola, mas não jogamos com a mão, ok?” Há!
Maria provavelmente concorda com essa coisa toda de amor à pátria e mãe gentil. Quando perguntada o porquê de toda essa festa em época de Copa, ela responde simplesmente: “Torcer para o nosso país é bom. Une os brasileiros”. E não, ela não gosta de futebol. E nem entende. Mas de quatro em quatro anos vale um esforçozinho, perguntar o que é volante, descobrir porque o juiz parou o jogo bem na hora em que o Robinho ia fazer gol, ficar indignada porque o jogador levou cartão só porque ele tirou a camisa na hora de comemorar o gol. E mal sabe ela que a punição por tirar a camisa merece mais indignação do que a maioria pensa. Na última década, a FIFA passou a ser mais rigorosa com os jogadores que resolvem manifestar sua felicidade tirando a camisa, por causa dos patrocinadores, que não estavam lá muito satisfeitos em ficar de fora dos momentos de comemoração.
Mas também ninguém gosta de ficar de fora de comemoração. O bar da esquina, que sempre recebe cruzeirenses e atleticanos – e, bem de vez em quando, americanos - durante os jogos do Campeonato Brasileiro, Libertadores, e todos esses outros eventos que grande parte dos que acompanham a Copa do Mundo não agüentam assistir; já espera um crescimento de 30% a partir de 11 de Junho, abertura da competição na África do Sul.
Se depender da tradição do bairro, 30% vai ser até pouco. Maria já disse que vai levar a tropa toda para ver os jogos no bar. “Lá é mais animado, todo mundo junto, gritando”. E, segundo ela, algumas vizinhas já se comprometeram a fazer o mesmo. Algumas delas gostam muito de futebol, vão ao Mineirão e tudo. Outras gostam mesmo é da festa da Copa, como tantos outros brasileiros e brasileiras.
E, claro, acham o Kaká “uma gracinha”. Bom, quem não acha?
Na casa vivem cinco pessoas. Quatro conhecem o termo escanteio, três sabem os nomes das funções dos jogadores, duas entendem o impedimento, e apenas uma consegue perceber, de fato, quando o jogador está impedido. Todas conhecem o Kaká, sabem que o Alexandre Pato foi casado com a Stephany Brito, mas dois não sabem que o atacante não foi convocado para a Copa do Mundo. Um não sabe que ele é atacante. Todos gritam gol durante os jogos do Brasil – sempre que há gol do Brasil, claro. Todos conhecem o Dunga, não pessoalmente, mas quase como se fosse, e criticam-no, porque, afinal, todos sabem que ele é incompetente. O pai se recorda de dezoito nomes dos vinte e três anunciados por Dunga, enquanto a filha mais velha consegue nomear treze. O filho do meio sabe dizer todos os vinte e três, mais os sete da lista de espera. A mãe e o filho mais novo conhecem os atacantes, o goleiro, o Kaká - porque ele é bonito, limpinho - e vai à Igreja!; e o Diego Tardelli, não porque ele é bonito e limpinho, mas porque é do Atlético-MG e todos na família são atleticanos.
A família adora a Copa do Mundo. Afinal, quem não adoraria? De quatro em quatro anos, o país se colore de verde e amarelo e todos – ou quase todos, jornalistas não incluídos – têm dispensa do trabalho para poder assistir aos jogos. E, ao contrário do que a família está acostumada a ver, seu time costuma jogar bem, ganhar e tem sempre muitas chances de se consagrar campeão. Mais uma vez! Alguns poderiam achar que fica chato, depois de cinco títulos em uma competição em que somente sete países já ganharam (Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, Uruguai, França e Inglaterra). Mas não, ganhar é sempre muito legal. Pergunte a qualquer venezuelano, ou, melhor ainda, venezuelana, e eles dirão que “Miss Universo” é a melhor e mais emocionante competição do universo, com o perdão do trocadilho. Pergunte a um norte-americano e ele lhe dirá que, bem... Para eles quase todas as competições são “piece of cake” (mamão-com-açúcar) . Com algumas exceções, como, tchantchan: isso mesmo, a Copa do Mundo de Futebol - e olha que nessa eles já planejam abocanhar seu espaço: atingiram a final da Copa das Confederações do ano passado e chegaram a colocar 2 de frente no Brasil.
Mas... A Copa do Mundo ainda é nossa! E não importa se tem desemprego, fome, miséria, tortura nos porões da ditadura. Quando Pelé, ou Ronaldinho, ou... Grafite?... Marcam um gol, nada mais importa, a emoção da maior competição esportiva do mundo prevalece sobre todas as outras e, assim, todos os brasileiros, tinta verde e amarela e sorriso no rosto, se abraçam em comemoração.
Alguns afirmam que foi diante desse momento de tanta felicidade e união que os governantes resolveram que ano de Copa seria também ano de eleição. Porque as pessoas ficam felizes com o Brasil e, portanto, dão mais atenção à votação, porque querem bem à nação. Ou algo do tipo. Bobagem. Brasileiro é brasileiro em época de Copa do Mundo ou não. Tal medida seria necessária nesses países cheios de conflitos internos, guerras civis, países da África, Ásia. Aqui não tem guerra civil, nem conflitos internos, não precisamos dessas coisas. E não é como nesses lugares esquisitos na Europa, como Suíça e Bélgica, em que, no mesmo país, ninguém se entende, porque ninguém fala a mesma língua. Deve ser por isso que não conseguem jogar futebol, um grita para passar a bola e o outro entende que é pra chutar para o gol. União e amor à pátria é pré-requisito para uma boa seleção e não conseqüência da mesma. É por isso que em futebol ninguém nos supera. Porque brasileiro é unido em qualquer canto do mundo. Basta procurar pessoas gritando, cantando e atraindo olhares rudes dos outros turistas e moradores locais, e você pode saber: brasileiros. E os olhares rudes? Pura inveja. Porque somos os campeões do mundo e eles não. Há! Como o jogador francês Thierry Henry, que recentemente afirmou que o Brasil só joga bola porque não tem escola. O humorista Beto Hora respondeu: “Tudo bem, nós jogamos futebol porque não temos escola, mas não jogamos com a mão, ok?” Há!
Maria provavelmente concorda com essa coisa toda de amor à pátria e mãe gentil. Quando perguntada o porquê de toda essa festa em época de Copa, ela responde simplesmente: “Torcer para o nosso país é bom. Une os brasileiros”. E não, ela não gosta de futebol. E nem entende. Mas de quatro em quatro anos vale um esforçozinho, perguntar o que é volante, descobrir porque o juiz parou o jogo bem na hora em que o Robinho ia fazer gol, ficar indignada porque o jogador levou cartão só porque ele tirou a camisa na hora de comemorar o gol. E mal sabe ela que a punição por tirar a camisa merece mais indignação do que a maioria pensa. Na última década, a FIFA passou a ser mais rigorosa com os jogadores que resolvem manifestar sua felicidade tirando a camisa, por causa dos patrocinadores, que não estavam lá muito satisfeitos em ficar de fora dos momentos de comemoração.
Mas também ninguém gosta de ficar de fora de comemoração. O bar da esquina, que sempre recebe cruzeirenses e atleticanos – e, bem de vez em quando, americanos - durante os jogos do Campeonato Brasileiro, Libertadores, e todos esses outros eventos que grande parte dos que acompanham a Copa do Mundo não agüentam assistir; já espera um crescimento de 30% a partir de 11 de Junho, abertura da competição na África do Sul.
Se depender da tradição do bairro, 30% vai ser até pouco. Maria já disse que vai levar a tropa toda para ver os jogos no bar. “Lá é mais animado, todo mundo junto, gritando”. E, segundo ela, algumas vizinhas já se comprometeram a fazer o mesmo. Algumas delas gostam muito de futebol, vão ao Mineirão e tudo. Outras gostam mesmo é da festa da Copa, como tantos outros brasileiros e brasileiras.
E, claro, acham o Kaká “uma gracinha”. Bom, quem não acha?