Acho
que parte de mim ficou naquela noite de 21 de Dezembro, ao som ao vivo do
Milton Nascimento, quando nós, quase que em uma brincadeira, decidimos testar
um beijo. Ou talvez tenha ficado numa daquelas noites na sua cama, ouvindo o
barulho da tv ligada, nas quais – mas em qual delas não sei dizer – finalmente
percebi que não éramos apenas uma brincadeira. Talvez tenha ficado presa a
algum dos vários “eu te amo” ou a algum orgasmo por aí. Talvez esteja em alguma
coisa que esqueci com você, ou no fato de que esqueci de mim mesma em muitas
das vezes nas quais estive contigo.
Talvez
esteja na música que me fez perceber que eu gostava mesmo muito de você. Mas
acho que não, porque quanto mais a escuto, mais parece que perco esta parte de
mim, ao tentar recuperá-la. Talvez esteja em minha cabeça, ligada à lembrança
do seu rosto, do seu sorriso, da sensação do seu beijo; e quando tento
busca-la, você vem junto, então preciso afastá-la novamente. Talvez esteja
escondida em algum rancor, ou a tenha perdido para sempre, num dos muitos
momentos em que senti que me perdi para você.
Talvez
ela esteja simplesmente com você, e a cada vez que te vejo, sinto uma incômoda
falta de você, porque sinto falta desta parte de mim que você contém. Como se
todos os “eus” das fotos em que estamos juntos, só fossem aqueles “eus” porque
estavam ali com você. Eu não era um “nós”, mas te dei tanto de mim e me fiz
tanto a partir de você, que acho que nos construímos um ao outro. Você tem
todas essas coisas que eu só disse para você, todos esses meus olhares que
foram seus, toda a vulnerabilidade que fizeram possível que você, em muitos
momentos, se unisse completamente a mim. Rasgar a sua parte da foto e jogá-la
fora, nada mais faz do que deixar a foto incompleta. Não dá pra rasgar a sua mão
entrelaçada na minha, nem o meu sorriso apaixonado, ou o fato de que o prato na
minha frente serve duas pessoas. Se eu te cortar, o olhar ainda mira um fora de
campo em que você se encontra e que altera totalmente meu quadro. E parte de
mim se dirige àquele espaço que não existe mais.
Não
sou incompleta sem você. Mas parte de mim ficou contigo, assim como parte de
você está comigo e influenciou quem sou hoje. Esta parte parece gritar para
você, assim como a minha me chama, quando nos encontramos. Essa parte de mim,
que na verdade é parte de você, fica muito confusa quando percebe que o tempo criou
um hiato entre essas partes que um dia se completavam. Faz pouco sentido para
quem não entende de tempo, e essa parte de mim não entende. Ela se ativa pelo
seu corpo, e não há distância que a faça entender que diabos é esse tempo que
faz tudo mudar tão completamente. O que era vira sonho, quase ilusão, e difícil
de se assimilar. Não pela parte racional do cérebro, que esta compreende muito
bem a situação e apoia indiscutivelmente a distância. Mas por aquela parte
quase inacessível, que administra todas aquelas coisas que ninguém sabe muito
bem administrar. É ali que você fica, escondido, pronto para me sabotar, mais
uma vez. E às vezes eu deixo, porque parece quase uma brincadeira, como aquela
do dia 21 de Dezembro. Mas, agora, meu amor, com um leve sabor amargo.