segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As noites destes amanhãs



Pra hoje, um texto antigo...



Os amanhãs são o problema. É incrivelmente clichê roubar palavras de Chico, e, no entanto, é só nas “noites eternas” que eu consigo pensar, quando aqueles momentos me vêm à mente. E é claro que elas pressupõem um amanhã, que vem sempre cheio de dúvidas e saudade. É nas manhãs do amanhã que as noites de ontem parecem uma mentira, não sua ou inventada por mim, mas uma cilada do próprio tempo, da própria distância. E nesses amanhãs eu tenho a vontade de dizer que devemos acabar com as noites, mas o simples pensamento delas me faz silenciar e aguardá-las, ansiosamente. Porque outras das minhas noites se repetem mais frequentemente, outras noites têm amanhãs que não consistem em um problema. Mas só as nossas são eternas.
Talvez eu tenha que esperar dias, semanas, meses, por elas. E no meio tempo eu me divirto - não se preocupe -, eu me divirto muito. E só sofro de vez em quando, de saudades, ciúmes, e todos esses efeitos colaterais que me trazem os amanhãs. Mas, por enquanto, as noites são eternas, e não me importo de esperar por elas. Ou por uma desistência sua, ou uma nova paixão minha, ou algum obstáculo maior que nos impossibilite de vez. Enquanto isso, elas permanecem sendo. Eternas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Sobre esse embate infinito...


Nem a religião, nem a ciência podem oferecer verdades absolutas. Calma, antes que os crentes ou os céticos radicais se levantem, quero dizer que qualquer “verdade” pode ser, de fato, uma verdade. O que, no entanto, não significa que possamos prová-la de forma definitiva e absoluta. Acho que mais irritante para os ateus radicais do que o fiel que grita com todas as forças que seu deus existe, são os ateus radicais que gritam para todos que deus não existe, de forma alguma.

Eu gosto da dúvida, justamente porque ela me deixa flutuar entre essas suas verdades, ambas arbitrárias. Em um Universo como o nosso, em que tão pouco sabemos além de conhecimentos que nos indicam minimamente o funcionamento de algumas coisas e nos permitem, precariamente, intervir, acho que é um pouco demais chamarmos a nossa ciência de verdade absoluta e nos proclamarmos certos de que, se algo não foi provado por nós, ele não existe. Eu digo o seguinte: se quando eu morrer, eu descobrir que estamos em um tipo de Matrix, que vivemos nas células de outros organismos, ou que, até mesmo, na verdade estamos cercados de unicórnios verdes que não podemos enxergar (exceto talvez alguns sob o efeito de drogas – então sim, até aqueles pirados do cogumelo que acham que deus vem à Terra em forma de THC podem estar certos!); nenhuma dessas opções me surpreenderia. Me dou ao direito de duvidar de tudo, mas também de não afirmar, com certeza, que tal coisa é fato e outra é mentira. Afirmar com toda certeza que algo não existe é uma forma de crença tanto quanto afirmar com toda certeza que ela, sim, existe. O poder da dúvida, e o famoso “só sei que nada sei”, é a potência, e a premissa, para o conhecimento, ainda que depois de adquirir algum tenhamos sempre que duvidar do mesmo.

Isso não significa que não se deva fazer ciência, ou mesmo religião, muito pelo contrário: estes são os meios que possuímos para tentar responder às perguntas que nunca terão, de fato, respostas. Talvez isto seja o interessante de tudo isso, essa busca que vale à pena mesmo que não indique nenhum ponto de chegada. Toda nossa vida, afinal, é assim, não é? O ponto de chegada é uma incógnita, o importante mesmo é que fazemos no entremeio, neste tempo sem muita explicação, entre os mistérios do nascimento e da morte.



"All religions, arts and sciences are branches of the same tree. All these aspirations are directed toward ennobling man's life, lifting it from the sphere of mere physical existence and leading the individual towards freedom." - Albert Einstein

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cinza


Será que importaria tanto assim? Saber quem é, como é, o que faz. Saber principalmente se me supera em todas aquelas coisas que você gostava em mim – se consegue se equiparar a você nos debates, se te diverte com a risada ou com a pretensa cara de zangada, se gosta dos seus livros, cd´s, ideais e paixões, se divide o garfo, briga pela comida, se perde em saudades e anseios futuros, planos, projetos e utopias; se lê, vê, viaja, grita, surta, dança e transa como eu. Será que ela é bonita? Alta? Magra? Será que você já disse pra ela que a quer do seu lado pra sempre? Que a imagina com um barrigão e um sorriso no rosto? E que quer envelhecer junto dela? Ou será que essas palavras você ainda guarda para mim, bem no fundo do seu ser orgulhoso e sempre acima dos outros mortais? Lá fora estava muito escuro para que eu visse seu rosto direito, e entre nós havia uma distância suprimida pelo contato da pele, mas não do resto. Sei lá, parecia que estávamos assim muito distantes. Mesmo que, na verdade, você estivesse literalmente dentro de mim. E eu nem estava me perguntando se eu estaria dentro de você, mas, assim, de repente, você resolveu falar. Daquele jeito impulsivo que sempre foi sua maior qualidade e o maior defeito também. Saiu um eu te amo que pareceu do tamanho daquela rua deserta, da proporção de um ano, ou mais de um ano, que nos separava do que havíamos sido, juntos, um dia. Um eu ainda te amo, como se fosse possível um dia amar e deixar de amar, ou possível ainda amar alguém que nunca se amou. E que palavra idiota, esta. Desnecessária. Ela não descreve a sua relação agora, e nem mesmo talvez descreva a nossa. Mas assim veio, veio para mim e não para ela, do outro lado da cidade (ou será que ela mora perto?), sem imaginar que ali você declarava que o seu amor ainda era meu. E com todo o meu egoísmo eu inspirei aquelas palavras, sem saber bem quais devolver. Sem saber.
E você se foi, com o seu eu te amo e todas as esperanças reativadas ali de um novo retorno. Eu não soube o que responder ao seu suposto amor e nem o saberia hoje, também. Ou amanhã, ou mesmo há três anos atrás. Os meus sentimentos sempre foram uma mistura infantil de milhares de coisas que eu achava que poderia sentir. Dessas coisas que a gente acredita que pode nos tirar do cinzento dessa vida de todo dia, em que todo mundo é cinza também e se mistura. E talvez a gente tenha criado mesmo, ou achado que criou, as nossas próprias cores ilusórias e passageiras. E passageiras passam, ainda que as nossas continuem aí, enganando nossos sentidos, por vezes. Algumas delas têm gosto de saudade e outras de tristeza. Mas eu gosto daquelas que guardam melancolia, porque elas dizem bem o que somos. Somos fuga de uma angústia que só nós dois temos do jeito que a gente tem, e que, por tentar curá-la juntando as nossas duas, só soubemos multiplicá-la. Não de um jeito ruim, porque melancolia tem sempre um lado bom, que acho que só nós sentimentais idiotas conseguimos, de fato, sentir. Mas aí eu penso, ela não deve ter isso. Porque se tivesse, você teria uma esperança verdadeira de curá-la ou multiplica-la com ela. E não, quando é coisa de sentimental idiota, você ainda quer que eu volte pra você. E mal sabe você que é exatamente essa melancolia que me atrai e repele, ao mesmo tempo. A gente vai ser feliz de um jeito bobo, com menos cores do que a gente achava que via, menos intensidade do que a gente achava que tinha, e no meio do cinza a gente se dissolve entre outras pessoas. Porque num mundo cinza a gente não foi feito para se reencontrar, então não sei porque afinal me incomoda que você se desfaça nesse cinzento por aí. Sei lá, vai ver que dia desses eu me desfaço também, e aí acaba.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sem Título



Acho que parte de mim ficou naquela noite de 21 de Dezembro, ao som ao vivo do Milton Nascimento, quando nós, quase que em uma brincadeira, decidimos testar um beijo. Ou talvez tenha ficado numa daquelas noites na sua cama, ouvindo o barulho da tv ligada, nas quais – mas em qual delas não sei dizer – finalmente percebi que não éramos apenas uma brincadeira. Talvez tenha ficado presa a algum dos vários “eu te amo” ou a algum orgasmo por aí. Talvez esteja em alguma coisa que esqueci com você, ou no fato de que esqueci de mim mesma em muitas das vezes nas quais estive contigo.

Talvez esteja na música que me fez perceber que eu gostava mesmo muito de você. Mas acho que não, porque quanto mais a escuto, mais parece que perco esta parte de mim, ao tentar recuperá-la. Talvez esteja em minha cabeça, ligada à lembrança do seu rosto, do seu sorriso, da sensação do seu beijo; e quando tento busca-la, você vem junto, então preciso afastá-la novamente. Talvez esteja escondida em algum rancor, ou a tenha perdido para sempre, num dos muitos momentos em que senti que me perdi para você.

Talvez ela esteja simplesmente com você, e a cada vez que te vejo, sinto uma incômoda falta de você, porque sinto falta desta parte de mim que você contém. Como se todos os “eus” das fotos em que estamos juntos, só fossem aqueles “eus” porque estavam ali com você. Eu não era um “nós”, mas te dei tanto de mim e me fiz tanto a partir de você, que acho que nos construímos um ao outro. Você tem todas essas coisas que eu só disse para você, todos esses meus olhares que foram seus, toda a vulnerabilidade que fizeram possível que você, em muitos momentos, se unisse completamente a mim. Rasgar a sua parte da foto e jogá-la fora, nada mais faz do que deixar a foto incompleta. Não dá pra rasgar a sua mão entrelaçada na minha, nem o meu sorriso apaixonado, ou o fato de que o prato na minha frente serve duas pessoas. Se eu te cortar, o olhar ainda mira um fora de campo em que você se encontra e que altera totalmente meu quadro. E parte de mim se dirige àquele espaço que não existe mais.

Não sou incompleta sem você. Mas parte de mim ficou contigo, assim como parte de você está comigo e influenciou quem sou hoje. Esta parte parece gritar para você, assim como a minha me chama, quando nos encontramos. Essa parte de mim, que na verdade é parte de você, fica muito confusa quando percebe que o tempo criou um hiato entre essas partes que um dia se completavam. Faz pouco sentido para quem não entende de tempo, e essa parte de mim não entende. Ela se ativa pelo seu corpo, e não há distância que a faça entender que diabos é esse tempo que faz tudo mudar tão completamente. O que era vira sonho, quase ilusão, e difícil de se assimilar. Não pela parte racional do cérebro, que esta compreende muito bem a situação e apoia indiscutivelmente a distância. Mas por aquela parte quase inacessível, que administra todas aquelas coisas que ninguém sabe muito bem administrar. É ali que você fica, escondido, pronto para me sabotar, mais uma vez. E às vezes eu deixo, porque parece quase uma brincadeira, como aquela do dia 21 de Dezembro. Mas, agora, meu amor, com um leve sabor amargo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Que nada



Aí eu pensei em você o dia inteiro. Em vocês todos, o dia inteiro. Em momentos reais e imaginários, em momentos que eu não sabia distinguir entre um e outro. Em coisas reais relacionadas a vocês e relacionadas a mim. Em coisas imaginárias relacionadas a mim e a meus anseios, e saudades, e projetos, e desejos, e todas essas coisas em que se pensa para se adiar o pensar nos afazeres de agora. Aí eu tive mais saudades. Do que tive, do que tenho, do que nunca vou ter, mas que tive tanto em pensamento que dá saudade quando volto à realidade. Aí o turbilhão continuou e eu não sei que música tocava enquanto eu andava sozinha na rua - ou talvez saiba, mas não queira compartilhar; mas o que quero mesmo dizer é que me veio, assim, de repente, uma sensação de possibilidade, daquelas que vem, como vento, e fazem tudo parecer que vale a pena, e depois te abandonam e te deixam com cara de idiota. Dessa vez, o sentimento de poder se misturou a um redemoinho tão intenso de sentimentos, que eu achei que fosse vomitar tudo aquilo, entre um sorriso e outro, entre a vontade de gritar e a vontade de cantar aquela música ali, sozinha, igual louca, para todo mundo ver.
Para todo mundo ver que nada faz muito sentido e que o simples fato de você não poder cantar alto por aí é só uma convenção boba da sociedade, assim como é o fato de ser feio sentar-se de boné à mesa, ser constrangedor arrotar, ser uma loucura sair pelado pelas ruas ou ser moralmente errado fazer sexo com “qualquer um”.
Para que todo mundo visse que estamos sempre andando para um lado e para o outro, como robôs, certos do que é certo, decididos a fazer “algo “ da nossa vida, olhando para aquele ponto final em que todo o nosso esforço valerá a pena. Sem nos lembrarmos que, ao buscar tão disciplinadamente fazer algo de nós, estamos fazendo um nada do dia de hoje, que pode se acabar amanhã, durante uma semana árdua de trabalho e stress.
Para que todo mundo parasse de correr e de olhar os relógios incessantemente, para que parassem de olhar para o chão ou de correr da chuva rala como se fosse ácido.
Para que todo mundo percebesse como nos vestíamos da mesma forma, como usávamos os mesmos gestos e como parecíamos todos patéticos, brincando de dar sentido a algo que nunca anunciou seu sentido.
Para que parassem os sons estridentes e para que saíssem da frente os prédios e os carros e os rostos franzidos de todos aqueles que, assim como eu, pensavam demais, se preocupavam demais, buscavam soluções demais, para problemas que nem mesmo existiam fora de suas cabeças.
E que todo mundo pudesse viver seus anseios e desejos e alegrias, de uma vez, sempre que a vida desse uma pequena brecha. As brechas são muito pequenas, eu acho, dá uma vontade louca de se enfiar naquele pequeno espaço de alívio e conforto e breve, brevíssima, felicidade, assim como dá vontade de gritar no ouvido de todas as pessoas que não o fazem. Mas aí percebi. Não podia gritar, nem cantar: ninguém ia perceber quantas palavras estariam por trás de um simples ato de, ingênua, transgressão. Eu seria apenas insanidade temporária, e todos voltariam a suas vidas, sem mais. A possibilidade permanecia em mim, mas tão desesperada, tão necessitada de uma via de saída que não podia existir, que se tornou fardo, em vez de liberdade.

domingo, 6 de maio de 2012

Só por hoje: agora



Sempre amanhã. Sempre daqui a alguns meses, algumas conquistas, alguns aprendizados. Sempre quando a tristeza passar, ou passarem os problemas ou a dor de algum acontecimento recente. Sempre quando não houver mais o que buscar – e sempre há. Lá na frente estão escondidas todas as felicidades e satisfações. O imperfeito só existe no presente. Como diria Renato Russo: ele não participa do passado. E em nossas mentes esperançosas e românticas, ele não participará do futuro também. Sempre criando empecilhos para viver o que precisa ser vivido, agora. Sempre pensando a longo-prazo, planejando, ansiando por. Por o que não temos, por algo que talvez nunca teremos, mas que se promete a resposta e a chave para a nossa felicidade. Eu não acredito em felicidade a longo-prazo, pelo menos não hoje. Pelo menos hoje, eu não acredito em esperar ou ter paciência. Tempo para esperar, terei quando for velha; paciência, quando não houver nada melhor para se fazer. Pelo menos hoje, eu acredito que tudo é agora. Eu procrastino, muito!, mas só o que é ruim, o que me faz bem eu quero o mais rápido possível. Imediatismo? Talvez. Eu quero o agora, o hoje. E, aos que vivem no amanhã: amanhã a gente se fala.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Meu próprio, pretensioso, ensaio sobre a cegueira

Durou por volta de dois minutos. Éramos cinco, mas somente dois vimos. Na verdade, naquela rua, naquele momento, éramos provavelmente quinze que poderíamos ter visto, e não vimos. Eu mesma não vi, apesar de ter dito que vi. Olhei, fingi que vi, mas se tivesse visto mesmo, não seria a mesma pessoa desde então. Eram cinco da tarde de um dia de verão, o que significa que não estava escuro o suficiente para não se ver, mas, mesmo assim, a nossa visão desejava que estivesse escuro para não ter que se ver. Era carnaval e já não me lembro qual música fazia as pessoas, quase nuas, justificadas pelo calor de Fevereiro (e pelo calor humano), dançarem, em um quase torpor. O cheiro, que seria intolerável em qualquer outra situação, não parecia atrapalhar a festa infinita, que não apontava ter algum começo, nem anunciava algum fim.


E então ele passou, com seus anos que não deveriam ser mais de dez, com uma sacola que não carregava mais de vinte latinhas, com seus pés descalços e a roupa velha. Com os olhos voltados para o chão, como ninguém mais, pois todos olhavam-se ou fechavam os olhos ou, os poucos que olhavam o menino, não viam nada. Entre as pernas dançantes e evitando esbarrões, ele possuía uma clareza e uma determinação que a nenhum de nós restava; lembro-me de sentir tontura com o cheiro de podre e de querer me sentar por causa do álcool, lembro-me de não compreender o êxtase de certas pessoas e de me irritar com o toque de outras, lembro-me que o objetivo daquele momento era fazer daquele momento um momento sem fim, sem consequências, sem passados, sem futuros, sem mais, e só o que senti foi que todos eram tão patéticos que não percebiam que não era desse jeito que se faziam momentos assim. Todos que pulavam no mesmo ritmo pareceram, de repente, fora de sintonia e os sorrisos me pareceram loucuras. A sombra de pouco mais de um metro que passava por nós me deixou tamanha parte de si que, por um instante, me senti sombra também e todos nós éramos escuridão, porque somente ele era algo de verdadeiro: somente ele era real e nós éramos fantasmas de nós mesmos, tentando escapar. Mas a realidade me pegou, a mim e talvez a alguns poucos, e me torturou por dois longos minutos. E depois se foi. Assim que fiz questão de voltar a ser fuga, e escolhi ser nada mais.