Será que importaria
tanto assim? Saber quem é, como é, o que faz. Saber principalmente se me supera
em todas aquelas coisas que você gostava em mim – se consegue se equiparar a
você nos debates, se te diverte com a risada ou com a pretensa cara de zangada,
se gosta dos seus livros, cd´s, ideais e paixões, se divide o garfo, briga pela
comida, se perde em saudades e anseios futuros, planos, projetos e utopias; se
lê, vê, viaja, grita, surta, dança e transa como eu. Será que ela é bonita?
Alta? Magra? Será que você já disse pra ela que a quer do seu lado pra sempre?
Que a imagina com um barrigão e um sorriso no rosto? E que quer envelhecer
junto dela? Ou será que essas palavras você ainda guarda para mim, bem no fundo
do seu ser orgulhoso e sempre acima dos outros mortais? Lá fora estava muito
escuro para que eu visse seu rosto direito, e entre nós havia uma distância
suprimida pelo contato da pele, mas não do resto. Sei lá, parecia que estávamos
assim muito distantes. Mesmo que, na verdade, você estivesse literalmente
dentro de mim. E eu nem estava me perguntando se eu estaria dentro de você,
mas, assim, de repente, você resolveu falar. Daquele jeito impulsivo que sempre
foi sua maior qualidade e o maior defeito também. Saiu um eu te amo que pareceu
do tamanho daquela rua deserta, da proporção de um ano, ou mais de um ano, que
nos separava do que havíamos sido, juntos, um dia. Um eu ainda te amo, como se
fosse possível um dia amar e deixar de amar, ou possível ainda amar alguém que
nunca se amou. E que palavra idiota, esta. Desnecessária. Ela não descreve a
sua relação agora, e nem mesmo talvez descreva a nossa. Mas assim veio, veio
para mim e não para ela, do outro lado da cidade (ou será que ela mora perto?),
sem imaginar que ali você declarava que o seu amor ainda era meu. E com todo o
meu egoísmo eu inspirei aquelas palavras, sem saber bem quais devolver. Sem
saber.
E você se foi, com o
seu eu te amo e todas as esperanças reativadas ali de um novo retorno. Eu não
soube o que responder ao seu suposto amor e nem o saberia hoje, também. Ou
amanhã, ou mesmo há três anos atrás. Os meus sentimentos sempre foram uma
mistura infantil de milhares de coisas que eu achava que poderia sentir. Dessas
coisas que a gente acredita que pode nos tirar do cinzento dessa vida de todo
dia, em que todo mundo é cinza também e se mistura. E talvez a gente tenha
criado mesmo, ou achado que criou, as nossas próprias cores ilusórias e
passageiras. E passageiras passam, ainda que as nossas continuem aí, enganando
nossos sentidos, por vezes. Algumas delas têm gosto de saudade e outras de
tristeza. Mas eu gosto daquelas que guardam melancolia, porque elas dizem bem o
que somos. Somos fuga de uma angústia que só nós dois temos do jeito que a
gente tem, e que, por tentar curá-la juntando as nossas duas, só soubemos
multiplicá-la. Não de um jeito ruim, porque melancolia tem sempre um lado bom,
que acho que só nós sentimentais idiotas conseguimos, de fato, sentir. Mas aí
eu penso, ela não deve ter isso. Porque se tivesse, você teria uma esperança
verdadeira de curá-la ou multiplica-la com ela. E não, quando é coisa de
sentimental idiota, você ainda quer que eu volte pra você. E mal sabe você que
é exatamente essa melancolia que me atrai e repele, ao mesmo tempo. A gente vai
ser feliz de um jeito bobo, com menos cores do que a gente achava que via,
menos intensidade do que a gente achava que tinha, e no meio do cinza a gente
se dissolve entre outras pessoas. Porque num mundo cinza a gente não foi feito
para se reencontrar, então não sei porque afinal me incomoda que você se
desfaça nesse cinzento por aí. Sei lá, vai ver que dia desses eu me desfaço
também, e aí acaba.
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