sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cinza


Será que importaria tanto assim? Saber quem é, como é, o que faz. Saber principalmente se me supera em todas aquelas coisas que você gostava em mim – se consegue se equiparar a você nos debates, se te diverte com a risada ou com a pretensa cara de zangada, se gosta dos seus livros, cd´s, ideais e paixões, se divide o garfo, briga pela comida, se perde em saudades e anseios futuros, planos, projetos e utopias; se lê, vê, viaja, grita, surta, dança e transa como eu. Será que ela é bonita? Alta? Magra? Será que você já disse pra ela que a quer do seu lado pra sempre? Que a imagina com um barrigão e um sorriso no rosto? E que quer envelhecer junto dela? Ou será que essas palavras você ainda guarda para mim, bem no fundo do seu ser orgulhoso e sempre acima dos outros mortais? Lá fora estava muito escuro para que eu visse seu rosto direito, e entre nós havia uma distância suprimida pelo contato da pele, mas não do resto. Sei lá, parecia que estávamos assim muito distantes. Mesmo que, na verdade, você estivesse literalmente dentro de mim. E eu nem estava me perguntando se eu estaria dentro de você, mas, assim, de repente, você resolveu falar. Daquele jeito impulsivo que sempre foi sua maior qualidade e o maior defeito também. Saiu um eu te amo que pareceu do tamanho daquela rua deserta, da proporção de um ano, ou mais de um ano, que nos separava do que havíamos sido, juntos, um dia. Um eu ainda te amo, como se fosse possível um dia amar e deixar de amar, ou possível ainda amar alguém que nunca se amou. E que palavra idiota, esta. Desnecessária. Ela não descreve a sua relação agora, e nem mesmo talvez descreva a nossa. Mas assim veio, veio para mim e não para ela, do outro lado da cidade (ou será que ela mora perto?), sem imaginar que ali você declarava que o seu amor ainda era meu. E com todo o meu egoísmo eu inspirei aquelas palavras, sem saber bem quais devolver. Sem saber.
E você se foi, com o seu eu te amo e todas as esperanças reativadas ali de um novo retorno. Eu não soube o que responder ao seu suposto amor e nem o saberia hoje, também. Ou amanhã, ou mesmo há três anos atrás. Os meus sentimentos sempre foram uma mistura infantil de milhares de coisas que eu achava que poderia sentir. Dessas coisas que a gente acredita que pode nos tirar do cinzento dessa vida de todo dia, em que todo mundo é cinza também e se mistura. E talvez a gente tenha criado mesmo, ou achado que criou, as nossas próprias cores ilusórias e passageiras. E passageiras passam, ainda que as nossas continuem aí, enganando nossos sentidos, por vezes. Algumas delas têm gosto de saudade e outras de tristeza. Mas eu gosto daquelas que guardam melancolia, porque elas dizem bem o que somos. Somos fuga de uma angústia que só nós dois temos do jeito que a gente tem, e que, por tentar curá-la juntando as nossas duas, só soubemos multiplicá-la. Não de um jeito ruim, porque melancolia tem sempre um lado bom, que acho que só nós sentimentais idiotas conseguimos, de fato, sentir. Mas aí eu penso, ela não deve ter isso. Porque se tivesse, você teria uma esperança verdadeira de curá-la ou multiplica-la com ela. E não, quando é coisa de sentimental idiota, você ainda quer que eu volte pra você. E mal sabe você que é exatamente essa melancolia que me atrai e repele, ao mesmo tempo. A gente vai ser feliz de um jeito bobo, com menos cores do que a gente achava que via, menos intensidade do que a gente achava que tinha, e no meio do cinza a gente se dissolve entre outras pessoas. Porque num mundo cinza a gente não foi feito para se reencontrar, então não sei porque afinal me incomoda que você se desfaça nesse cinzento por aí. Sei lá, vai ver que dia desses eu me desfaço também, e aí acaba.