quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sem Título



Acho que parte de mim ficou naquela noite de 21 de Dezembro, ao som ao vivo do Milton Nascimento, quando nós, quase que em uma brincadeira, decidimos testar um beijo. Ou talvez tenha ficado numa daquelas noites na sua cama, ouvindo o barulho da tv ligada, nas quais – mas em qual delas não sei dizer – finalmente percebi que não éramos apenas uma brincadeira. Talvez tenha ficado presa a algum dos vários “eu te amo” ou a algum orgasmo por aí. Talvez esteja em alguma coisa que esqueci com você, ou no fato de que esqueci de mim mesma em muitas das vezes nas quais estive contigo.

Talvez esteja na música que me fez perceber que eu gostava mesmo muito de você. Mas acho que não, porque quanto mais a escuto, mais parece que perco esta parte de mim, ao tentar recuperá-la. Talvez esteja em minha cabeça, ligada à lembrança do seu rosto, do seu sorriso, da sensação do seu beijo; e quando tento busca-la, você vem junto, então preciso afastá-la novamente. Talvez esteja escondida em algum rancor, ou a tenha perdido para sempre, num dos muitos momentos em que senti que me perdi para você.

Talvez ela esteja simplesmente com você, e a cada vez que te vejo, sinto uma incômoda falta de você, porque sinto falta desta parte de mim que você contém. Como se todos os “eus” das fotos em que estamos juntos, só fossem aqueles “eus” porque estavam ali com você. Eu não era um “nós”, mas te dei tanto de mim e me fiz tanto a partir de você, que acho que nos construímos um ao outro. Você tem todas essas coisas que eu só disse para você, todos esses meus olhares que foram seus, toda a vulnerabilidade que fizeram possível que você, em muitos momentos, se unisse completamente a mim. Rasgar a sua parte da foto e jogá-la fora, nada mais faz do que deixar a foto incompleta. Não dá pra rasgar a sua mão entrelaçada na minha, nem o meu sorriso apaixonado, ou o fato de que o prato na minha frente serve duas pessoas. Se eu te cortar, o olhar ainda mira um fora de campo em que você se encontra e que altera totalmente meu quadro. E parte de mim se dirige àquele espaço que não existe mais.

Não sou incompleta sem você. Mas parte de mim ficou contigo, assim como parte de você está comigo e influenciou quem sou hoje. Esta parte parece gritar para você, assim como a minha me chama, quando nos encontramos. Essa parte de mim, que na verdade é parte de você, fica muito confusa quando percebe que o tempo criou um hiato entre essas partes que um dia se completavam. Faz pouco sentido para quem não entende de tempo, e essa parte de mim não entende. Ela se ativa pelo seu corpo, e não há distância que a faça entender que diabos é esse tempo que faz tudo mudar tão completamente. O que era vira sonho, quase ilusão, e difícil de se assimilar. Não pela parte racional do cérebro, que esta compreende muito bem a situação e apoia indiscutivelmente a distância. Mas por aquela parte quase inacessível, que administra todas aquelas coisas que ninguém sabe muito bem administrar. É ali que você fica, escondido, pronto para me sabotar, mais uma vez. E às vezes eu deixo, porque parece quase uma brincadeira, como aquela do dia 21 de Dezembro. Mas, agora, meu amor, com um leve sabor amargo.

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