quinta-feira, 3 de maio de 2012

Meu próprio, pretensioso, ensaio sobre a cegueira

Durou por volta de dois minutos. Éramos cinco, mas somente dois vimos. Na verdade, naquela rua, naquele momento, éramos provavelmente quinze que poderíamos ter visto, e não vimos. Eu mesma não vi, apesar de ter dito que vi. Olhei, fingi que vi, mas se tivesse visto mesmo, não seria a mesma pessoa desde então. Eram cinco da tarde de um dia de verão, o que significa que não estava escuro o suficiente para não se ver, mas, mesmo assim, a nossa visão desejava que estivesse escuro para não ter que se ver. Era carnaval e já não me lembro qual música fazia as pessoas, quase nuas, justificadas pelo calor de Fevereiro (e pelo calor humano), dançarem, em um quase torpor. O cheiro, que seria intolerável em qualquer outra situação, não parecia atrapalhar a festa infinita, que não apontava ter algum começo, nem anunciava algum fim.


E então ele passou, com seus anos que não deveriam ser mais de dez, com uma sacola que não carregava mais de vinte latinhas, com seus pés descalços e a roupa velha. Com os olhos voltados para o chão, como ninguém mais, pois todos olhavam-se ou fechavam os olhos ou, os poucos que olhavam o menino, não viam nada. Entre as pernas dançantes e evitando esbarrões, ele possuía uma clareza e uma determinação que a nenhum de nós restava; lembro-me de sentir tontura com o cheiro de podre e de querer me sentar por causa do álcool, lembro-me de não compreender o êxtase de certas pessoas e de me irritar com o toque de outras, lembro-me que o objetivo daquele momento era fazer daquele momento um momento sem fim, sem consequências, sem passados, sem futuros, sem mais, e só o que senti foi que todos eram tão patéticos que não percebiam que não era desse jeito que se faziam momentos assim. Todos que pulavam no mesmo ritmo pareceram, de repente, fora de sintonia e os sorrisos me pareceram loucuras. A sombra de pouco mais de um metro que passava por nós me deixou tamanha parte de si que, por um instante, me senti sombra também e todos nós éramos escuridão, porque somente ele era algo de verdadeiro: somente ele era real e nós éramos fantasmas de nós mesmos, tentando escapar. Mas a realidade me pegou, a mim e talvez a alguns poucos, e me torturou por dois longos minutos. E depois se foi. Assim que fiz questão de voltar a ser fuga, e escolhi ser nada mais.

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