Eu nunca tinha ficado do lado
de cá do problema. Eu era sempre a vítima ou assim me via, sempre a que tinha o
amargo prazer de colocar a culpa no outro, ainda que ela não estivesse tão no
outro assim. Mas eu sentia que estava, e, mesmo quando estava um pouco em mim
também, era fácil dividi-la. Ainda acho que desta vez não tenho “culpa”,
propriamente dita, mas ela me foi colocada com tanta intensidade que me sinto
quase tentada a assumi-la. Só para ver como é, esse outro lado, de cá.
Confesso, e não é com alegria, que ele não é tão terrível quanto o lado de lá.
Sempre me tentaram convencer de que era, e de que ser odiado era tão pior do
que odiar que eu deveria estar satisfeita por poder deitar a cabeça, limpa, no
travesseiro e dormir sem culpa. Mas a ironia é que, com a cabeça limpa e
pretensamente leve, porque de leve não havia nada, achava que dormiria bem, o
sono dos justos, mas nunca dormi. A raiva, a tristeza, a decepção e todas essas
coisas que infelizmente costumam andar juntas, são muito mais inimigas do sono
do que a culpa. A culpa em mim tem quase um gosto doce depois de tanto jogar no
time adversário, eu quase a recebo com certa simpatia, como um alguém de quem
não gosto muito, mas que estou feliz ao perceber que me tem certa consideração.
Então a
recebo, mesmo que ela a mim não pertença tanto assim. Deixo que digam que sou
culpada, ainda que muitos digam que não o sou. E reconheço que a culpa é
relativa, mas que posso viver em sua companhia, por enquanto. Enquanto queiram
que ela a mim caiba.
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